Testemunho do seminarista Nelson Rodrigues

10-11-2012 15:38

    No âmbito da Semana dos Seminários, um seminarista que se encontra a frequentar o ultimo ano da faculdade de Teologia, foi convidado a fazer um pequeno testemunho Vocacional.

 

 

 

TESTEMUNHO VOCACIONAL

 

    Como começou?

        A quem me pediu que escrevesse algo sobre a minha opção de vida pelo sacerdócio, prometi que faria o esforço de o fazer quando estivesse a concluir o meu Retiro. Pois cá estou eu, diante do Santíssimo, tentando rever aquilo que tem sido a Sua história para comigo.

Sou o Nélson e nasci a 17 de Abril de 1989 em Faro. Cresci numa freguesia perto da Capital Algarvia, Conceição de Faro, sem quaisquer referências cristãs na educação dada pelos meus pais. Pouco me lembro das “coisas” da Igreja durante o tempo da minha infância. Contudo, sempre alimentei um enorme desejo de ser diferente de todos os outros, sem ter consciência ainda de que Deus criara todos de maneira única e irrepetível.

        Em 2002, uma “paixoneta” fez-me entrar para a Catequese. Sinto que Ele queria puxar-me para junto de si e serviu-se do meu ânimo de adolescente para o fazer, mas o certo é que tudo não passou de um “isco”. Apercebo-me que assim foi pois essa rapariga acabou por se afastar de tudo a que me tinha conduzido enquanto eu continuei: Acólitos, Escuteiros, Coro, Cáritas, Arautos de São Francisco de Assis, etc. Sentia-me realizado.

        Depois de muitas voltas, confusões, emoções; algo que, a seu tempo, darei o devido valor, decidi entrar no Seminário de São José, em Faro. Tinha 16 anos. Nesta altura não sabia muito bem o que estava a fazer mas sabia o essencial: estava a pôr-me completamente disponível para Deus. Assim, sentir que Deus chama ao Sacerdócio continua a ser uma tarefa de hoje… no concreto das minhas relações e até daquilo de que tenho mais medo, vou encontrando pequenos sinais que me mostram a Sua vontade.

        Antes pensava que era o “maior” por ter dito «sim» ao chamamento mais radical e sublime que pode existir. Agora vou moldando a minha maneira de pensar e sinto que sou apenas mais um que percebeu que «Ele nos escolheu em Cristo para sermos Santos e irrepreensíveis no Amor» (cf. Ef 1, 4).

        As tentações são muitas. Quanto mais me esforço para a santidade, mais me dou conta da minha pequenez. Consola-me muito aquela frase que tantas vezes se escuta nas ordenações: «Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos».

 

    A formação

        Os Seminaristas algarvios fazem os seus estudos filosófico-teológicos no Seminário Maior de Évora. No entanto, temos a consciência que não saímos da nossa Diocese durante estes anos somente para estudar. Estamos inseridos numa comunidade, com um ritmo específico, o que nos ajuda, desde já, a fazer uma experiência mais intensa de comunhão eclesial.

        Durante a semana, a vida começa bem cedo. Às 7h reunimo-nos para fazer a nossa oração da manhã, seja Laudes ou Eucaristia. Depois do pequeno-almoço, seguem-se as aulas no Instituto Superior de Teologia (ISTE). Terminadas as aulas, almoçamos.

        As tardes proporcionam-nos o tempo necessário para realizar as nossas actividades. Regra geral, as tardes são geridas por cada um de forma a se poder estudar, preparar as actividades pastorais ou ainda desenvolver trabalhos comunitários. Às 19h celebra-se a Eucaristia com o Canto das Vésperas ou só as Vésperas, caso a Eucaristia tenha sido celebrada de manhã.

        Às Segundas-Feiras à noite, fazemos reuniões por Dioceses onde procuramos ter presente o que se vive em cada Igreja local e rezar juntos. Às Quartas-Feiras à noite parte dos Seminaristas participa nos ensaios do Coro da Catedral. Às Quintas-feiras, pelas 21h15, fazemos adoração ao Santíssimo Sacramento pedindo pelas vocações e pela santificação dos Sacerdotes. Às Sextas-Feiras à tarde, é habitual dedicar algum tempo ao desporto. No fim da tarde, fazemos Lectio Divina com partilha comunitária.

        Os Fins-de-Semana são dias de grande dispersão pois cada um insere-se nas paróquias onde trabalha fazendo as mais diversas actividades: Catequese, Escuteiros, Socio-Caritativo, Animação Musical, Pastoral dos Doentes, etc. A par de todas estas actividades acresce o Lausperene nocturno mensal, as Orações de Portas Abertas para os jovens, as Tertúlias, os passeios comunitários, os Retiros, etc.

 

    Vida comunitária: uma exigência.

        Quem disse que era fácil viver com tanta gente? Quem o disse não terá feito ainda a experiência. Mas, serei injusto se disser que não há coisas boas que advenham deste estilo de vida: uma vida de oração mais intensa e mais “partilhada”, experiências de vida diferentes, coisas novas a aprender todos os dias, gente tão próxima para eu começar a amar, enfim. O Senhor prendou-me ao possibilitar que pudesse ter esta experiência de vida.

        Mas, e em tudo há um “mas”, a vida comunitária nem por isto se torna fácil. É tão difícil conjugar feitios, personalidades, vontades, interesses, etc. Infelizmente, já experimentei, entre seminaristas, situações pelas quais nunca passei noutros contextos. Se é verdade que todos passam por momentos de deserto, de noite escura, de maior afastamento de Deus, devo dizer que o fiz cá ao tentar dar uma “ordem” a cenários que talvez não me pertenciam.                 Terei eu a querer pôr-me no lugar de Deus. Seja Ele sempre o motivo dos meus pequenos sinais de fraternidade. Possa todos os dias amar como amava noutros tempos em que não tinha tantas coisas a ocupar-me.

        Viver em comunidade, ainda assim, é fazer mais depressa a experiência de um Deus próximo…

 

    Perspectiva

        Neste momento encontro-me no 6º Ano de Teologia. Significa isto que estou a viver os meus últimos meses antes de ser ordenado, assim queira Deus e a Igreja. Para além de continuar a esforçar-me por crescer da forma como Deus quer, ocupa-me, de maneira especial, a Tese de conclusão do curso que estou a fazer em Lisboa.

        Estou confiante que poderei ser sempre mais e melhor. Para isso, conto com as orações da Paróquia de S. Lourenço em Carnide que, durante o ano passado, todas as semanas rezou comigo e por mim, para que nunca me esquecesse que tenho uma Igreja que olha para mim com esperança. Durante esta Semana dos Seminários, rezai por todos os jovens que andam inquietos, por aqueles que nunca se chegam a inquietar e ainda por todos os que de algum modo já deram o seu sim.

 

 

                                                                                                                                                            Nelson Rodrigues